terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A mau contada história da guerra na Geórgia

Esse é o primeiro post que eu faço a pedidos. Parece que caiu uma questão sobre isso no vestibular da UFC esse ano, e uma amiga me pediu informações sobre isso, então resolvi escrever aqui alguma coisa sobre o assunto e deixar publicado.

A primeira coisa que é preciso entender em relação ao que aconteceu na Geórgia esse ano é que praticamente todas as informações que sairam na mídia foram equivocadas, mau contadas ou simplesmente mentirosas. Quase tudo que você tenha assistido no Jornal Nacional, ou lido num jornal de grande circulação, é informação que não pode ser confiada. Se você se guiar por eles, o que aconteceu na Geórgia foi basicamente o seguinte: a grande e malvada Rússia estava apoiado "rebeldes separatistas" da Ossétia do Sul, e quando a Geórgia foi tentar exercer o controle sobre a região, o Exército russo atacou e destruiu o Exército da Geórgia, massacrou civis e praticamente demoliu o pequeno país. Como eu disse, quase tudo o que está dito acima é falso ou pelo menos maquiado pra confundir você.

A verdade sobre o que aconteceu é BEEEM mais complicada, mas vamos lá. Isso pode ficar um pouco longo, porque a história toda é muito complicada, mas eu vou tentar manter a coisa mais ou menos nos eixos. Em primeiro lugar, é preciso entender que a Geórgia fica no meio do Cáucaso, e aquilo ali é uma colcha de retalhos de diferentes povos, religiões e tudo o mais que você imagina, tudo banhado a muito sangue. Aquilo é uma confusão só, mas basicamente você precisa saber que ali tem gente muçulmana (os Chechênios, por exemplo, que justamente estavam querendo se separar da Rússia por causa disso), gente cristã Ortodoxa Russa, uma minoria cristã nestoriana e diversos outros pequenos cultos que ninguém nunca ouviu falar. Etnicamente, a coisa fica dividida entre os chechênios, os Ossétios, os russos, os azerbaijanos, georgianos, judeus, minorias étnicas de origem persa e os diferentes paises de origem turca ou mongólica (Cazaquistão, Uzbequistão, etc). Complicado o suficiente, já? Pois é, e a maioria dessa galera odeia uns aos outros faz séculos, por razões que só eles entendem. Aquilo tudo tinha sido conquistada pela Rússia czarista no século XIX e, depois da Revolução de Outubro, várias partes da região tentaram se livrar da Rússia, e outras apoíaram a Rússia, enfim, o caos. O Exército Vermelho teve que botar ordem na região a ferro e fogo nos anos 20.

Veja esse mapa pra ter idéia do caos.


Quando a poeira disso tudo baixou, a região foi artificialmente divida em meia dúzia de "Repúblicas Socialistas Soviéticas", como o Kazaquistão, Uzbequistão, Azerbaijão e, evidentemente, a Geórgia. Esses países, vale lembrar, faziam parte da "União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", mas na prática eram estados satélites da Rússia, que era a cabeça central da União Soviética. Muitos desses estados, entretanto, tinham fronteiras artificiais, que deixavam diferentes populações juntas em um mesmo estado, ou populações próximas dentro de estados diferentes. Com a Geórgia, acontecia as duas coisas ao mesmo tempo. Pouca gente sabe, mas o georgiano mais famoso do mundo é um carinha com o nome de Joseph Stálin. Quando ele assumiu o poder na União Soviética, ele não esqueceu a sua velha terra natal e foi bem generoso com a Geórgia, dando um território relativamente grande para ela, no qual outros grupos étnicos não-georgianos estavam incluidos. A Geórgia também ficou famosa como sendo a "riviera francesa" da União Soviética, tipo uma colônia de férias para os oficiais superiores do exército e do Partido Comunista, cheio de "dachas" luxuosas onde os camaradas do partido podiam relaxar e curtir o clima mais ameno do que os invernos rigorosos de Moscou. Eu sei que isso tudo parece pouco relevante, mas vai por mim, é relevante sim.

Agora, chegamos ao centro da questão. Duas áreas, em especial, sempre foram problemáticas na Geórgia. Uma era a Abkhazia, uma região costeira habitada, obviamente, pelos "abkhazes". A outra é justamente a Ossétia do Sul. O engraçado é que, apesar de a Ossétia do Sul ser habitada principalmente por Ossétios, ela faz parte da Georgia, enquanto a Ossétia do Norte, também habitada principalmente por Ossétios, faz parte da Rússia em si. Viram ai como a coisa é complicada? E mais, a Geórgia é um país antiquíssimo, cheio de tradições próprias. Eles tem uma igreja própria (a Igreja Ortodoxa da Geórgia, separada da Ortodoxa Russa), alfabeto próprio, língua própria, etc. Aparentemente eles habitam aquela região desde o Neólitico, sendo um caso raro de povo que ficou no mesmo canto todo esse tempo sem ser extinto. Os Ossétios, por outro lado, são completamente diferentes, eles são um povo indo-europeu, aparentados com os Persas (atuais Iranianos), e o nome antigo deles eram "Alanos" (isso mesmo, aqueles que invadiram Roma). Eles tem uma língua própria, em geral são mais claros e tendentes ao cabelo loiro e olhos claros do que os georgianos, e são Ortodoxos Russos. A coisa toda foi mantida sob controle durante a União Soviética em parte por conta da repressão mesmo e em parte porque, apesar de oficialmente ser parte da República Soviética da Geórgia, a Ossétia do Sul era praticamente uma região autônoma.

Quando a União Soviética se dissolveu, um dos primeiros países a pular fora e mandar a Rússia ir para aquele lugar foi justamente a Geórgia, que nunca tinha gostado de ser parte da Rússia em primeiro lugar. Assim que a independência da Geórgia foi declarada, o caos começou. A Abkhazia e a Ossétia do Sul declararam independência da récem-independente Geórgia, ouve um golpe de estado, uma guerra civil, enfim, o caos. No final das contas, um cara
chamado Eduard Shevardnadze assumiu o controle em 1995, mas no meio da confusão toda a Abkhazia e a Ossétia do Sul, com apoio russo, tinham expulsado o governo da Geórgia das duas regiões e ficaram sendo, de fato, regiões independentes. Mas a ONU, com a sabedoria de sempre (que é zero), resolveu reconhecer todos os países que se fragmentaram da União Soviética com as mesmas fronteiras que tinham antes. Daí, se você pegar qualquer mapa ou atlas, vai aparecer lá a Geórgia inteirinha, com a Abkhazia e a Ossétia do Sul incluídas, apesar de que desde 1993 que o governo central da Geórgia não manda naquelas regiões e que elas são efetivamente independentes. Essa é uma das partes da história que a mídia não conta.

A Geórgia, que não é boba nem nada, procurou apoio dos países ocidentais e, especialmente, dos Estados Unidos, desde sua independência. Se você tem um vizinho como a Rússia, e se vocês dois não se dão bem, o único jeito de você ter alguma paz é se aliar com o único país que bota medo na Rússia, que é justamente o bom e velho USA. Pros Estados Unidos, a Geórgia tinha duas utilidades. Em primeiro lugar, era uma base colada na Rússia, de onde os Estados Unidos podiam continuar a política que eles mantinham desde a queda da União Soviética, ou seja, a de cercar a Rússia com estados-satélites aliados a Washington e deixar a Rússia de joelhos. Na verdade, a Guerra Fria nunca acabou de verdade. Os Estados Unidos até hoje tem tentado cercar e isolar a Rússia internacionalmente e a OTAN (que foi criada para combater o Pacto de Varsóvia) não só continua existindo como incorporou ex-aliados Soviéticos, como a Polônia. Isso é outra coisa que você não lê nos jornais. A outra é que a Geórgia possui um oleoduto importante para os países europeus, pois é por ali que passa a produção de oléo do Azerbaijão, que vai para a Turquia e de lá para a Europa. Sem a Geórgia, o oléo teria que passar ou pela Rússia ou pelo Irã, e nenhum desses países é "amigo" da Europa e dos Estados Unidos. A Rússia, é claro, não gostou de nada disso, mas, falida e desmoralizada, não havia nada que ela podia fazer. Por fim, os Estados Unidos e a Europa chegaram ao ponto de irritar a Rússia com a Guerra do Kosovo. Há de lembrar que a Sérvia era um grande aliado da Rússia e que, quando Kosovo foi declarado independente, isso foi feito por cima de protestos da Rússia e contra a própria política da ONU, que era de não desmembrar países por questões de conflitos étnicos. Uma vez que você começa a separar países por base nisso, tem dezenas de países com minoras étnicas, especialmente em regiões conflituosas como África e Oriente Médio (e o Cáucaso), que vão querer fazer o mesmo.

Chegamos, finalmente, a guerra em si. Em 2003, o tal do Shevarnadze, que tinha sido reeleito no ano 2000, foi retirado do poder pela 'Revolução das Rosas" e substituido pelo atual presidente, um tal de
Mikheil Saakashvili. Isso porque, apesar de ser um aliado dos Estados Unidos, ele não era um aliado bom o suficiente, basicamente. É engraçado que quando um governo eleito que é amigo dos Estados Unidos caí, isso é um "golpe", mas quando o governo é anti-americano, isso é uma "revolução". É esse tipo de coisa que a mídia faz, sem que ninguém note direito. Bom, esse tal do Saakashvili é um linha dura, com fama de esquentado (ou desequilibrado mesmo) e que estudou nos Estados Unidos e fala inglês fluente. É, enfim, um fantoche dos Estados Unidos. Ele recebeu uma grana em "pacotes de ajuda econômica" e em armas, equipamente e treinamento para o exército da Geórgia. Os Estados Unidos deu uniformes, munição, artilharia, fuzis, aviões, etc, para a Geórgia. Até modificou e melhorou os tanques de origem soviética que eles tinham. Obviamente, a Geórgia é um dos poucos países que apoiou a invasão do Iraque e antes da guerra com a Rússia, tinha uns 2.000 soldados georgianos no Iraque, o que representa o terceiro maior contigente, depois do dos Estados Unidos e da Inglaterra.

O tal do Saakashvili, como eu disse, é um linha dura e ultra-nacionalista. Ele também odeia a Rússia. Uma das promessas que fez quando assumiu o poder, foi o de re-estabelecer o controle sobre a Abkhazia e Ossétia do Sul. E é aqui que a mídia fica ainda mais suspeita. Ninguém diz muito isso, mas quem começou a guerra foi a Geórgia, não a Rússia. Veja bem, na Ossétia do Sul tinha um contigente de uns 1.700 soldados russos, que estavam lá legalmente, com um mandato da ONU. Além disso, tem uns 3.000 soldados irregulares nativos da Ossétia. No dia 7 de Agosto de 2008, a Geórgia lançou um ataque por terra e por ar contra a capital regional da Ossétia do Sul, a cidade de Tskhinvali. No processo, eles destruíram várias vilas, mataram centenas de civis e completamente demoliram a cidade nas primeiras 36 horas do ataque. Eles usaram aviões carregadas de "cluster bombs" (basicamente uma bomba feita de centenas de bombas menores, que se espalham e causam grande dano), artilharia e foguetes não-guiados. Vários soldados russos que estaval lá, repito, legalmente, foram mortos nesses bombardeiro. Pra vocês terem noção, a Ossétia do Sul inteira só tem 80.000 pessoas (isso deve dar mais ou menos a população do Conjunto Ceará, ou até menos), e cerca de metade dessas pessoas teve que fugir para a Rússia por causa da destruição, umas 1.200 ou mais morreram e o resto ficou tentando sobreviver nos escombros.
Tanque da Geórgia destruído em Tskhinvali

Ninguém sabe bem o que se passou na cabeça do Saakashvili e do alto-comando do exército da Geórgia ao fazer isso. É um mistério que o presidente de um país do tamanho da Geórgia (população 4 milhões, cerca de metade da população do Ceará) tenha decidido atacar a Rússia. Logo a Rússia, o país que derrotou Napoleão, Hitler e que nunca foi invadido desde o tempo dos Mongóis. Mas a verdade é que ele atacou, ele que começou a guerra, e ele foi o primeiro a cometer barbaridades, como bombardear pesadamente uma área civil. Eu só posso imaginar que eles pensaram que a Rússia não ia revidar, com medo dos Estados Unidos, mas isso não aconteceu. O que pegou todo mundo de surpresa foi a velocidade com que a Rússia reagiu. Ninguém dava mais nada pelo Exército Russo depois da queda da União Soviética, dizia-se que ele era mau-treinado, mau-pago, mau-equipado, etc. Mas, o que apareceu na Geórgia foi diferente. Em menos de 24 horas a Marinha Russa bloqueou os portos da Geórgia e desembarcou uma força anfíbia na Abkhazia e a Força Aérea Russa abateu todos os aviões da Geórgia que se atreveram a voar e estabeleceu controle aéreo do país. Os cerca de 1.500 soldados da Geórgia que atacaram a Ossétia do Sul só ficaram em Tskhinvali por cerca de 3 horas, antes que tivessem que se retirar sob fogo da artilharia e dos aviões russos. No dia seguinte, a infantaria e os tanques russos já estavam rolando a toda velocidade na Ossétia do Sul. Já no terceiro dia das operações todas as forças da Geórgia tinham sido expulsas da Ossétia e estavam em fuga aberta, sendo bombardeadas pelos aviões russos. Todo o equipamento pesado deles, tanques, caminhões, artilharia, etc, foi destruído ou abandonado. Enfim, a Rússia demoliu o exército da Geórgia em 48 horas. Se o Putin quisesse, ele tinha mandado os tanques entrarem em Tbilisi (a capital da Geórgia) e ninguém ia poder impedir. Ele chegou mesmo a deixar algumas tropas entrarem dentro da Geórgia, conquistado a cidade de Gori (por onde passa a principal estrada e ferrovia do país, cortando a Geórgia ao meio) e os portos do país. Os Estados Unidos fez pouca coisa além de reclamar e arrumar uns aviões para levar os soldados da Geórgia que estavam no Iraque de volta pra casa, mas antes que eles pudessem fazer qualquer coisa a Rússia já tinha ganho a guerra.

Obviamente, a história não foi contada desse modo. Os soldados russos foram surpreentemente controlados quando entraram na Geórgia. Eles não destruíram muito as regiões onde chegaram, nem mataram civis ou coisa do tipo. O exército russo tem a fama bem-merecida de ser brutal, mas dessa vez eles forama até calmos. O que apareceu na mídia, entretanto, era que a Rússia estava destruíndo a Geórgia, matando civis, o presidente da Geórgia, o louco, teve até a ousadia de dizer que a Rússia estava cometendo um "genocídio" na Geórgia. E a mídia ocidental repitiu esse negócio todo por alguns dias. Chegou-se inclusive a se falar que a Rússia tinha atacado a Geórgia, porque a Geórgia era um estado "democrático", e isso irritava a Rússia e outras asneiras do tipo. No final das contas, os repórteres que foram pra lá começaram a contar uma história diferente. Ficou claro que quem tinha começado o tiroteio tinha sido o
Saakashvili, que ele tinha atacado civis na Ossétia do Sul e que os russos não estavam, de fato, destruindo a Geórgia. O próprio Departamento de Estado começou a mudar de foco. Em vez de repetir os chavões do Saakashvili, eles passaram a tentar acobertar a coisa toda, o que foi fácil, porque as Olimpíadas tinham acabado do começar. Quando a mídia ocidental descobriu como a coisa toda fedia, e que eles tinham mentido para o público quando repetiram informações mentirosas da Geórgia e do Departamento de Estado dos Estados Unidos, eles ao invés de dizer que tinham errado e tal, simplesmente calaram a boca e fizeram uma meia dúzia de matérias escondidas que contavam, mais ou menos, o que se via. Somente através da internet você conseguia umas informações mais detalhadas.

Não se pode dizer que a Rússia era a boazinha da história. Eles demoliram o exército da Geórgia mais do que era necessário como forma de demonstrar força. Há também interesses estratégicos que ela estava seguindo. Dando uma pisa na Geórgia ela mandou uma mensagem indireta pra todos os países da região de que não adianta ser baba-ovo dos Estados Unidos. Quem manda ali ainda é a Rússia, e é bom esses outros países prestarem atenção e serem legais com o Tio Putin. Especialmente quando eles quiserem fazer algum oleoduto. Agora, o que rolou na mídia foi uma história tipo Davi e Golias. Que a pobre coitada Geórgia foi atacada pelo grande vilão Rússia. E isso simplesmente não é verdade. Esse
Saakashvili é um louco, uma ameaça à ordem internacional. A Geórgia é um fantoche dos neo-conservadores americanos. Isso precisa ficar bem claro.

Bom, esse post ficou gigante, então vou encerrar por aqui. Desculpem, mas a história era complicada mesmo. Se alguém pedir, posso botar uns links para sites (em inglês), que eu usei como fonte.

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