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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um Nó Górdio - Israel e Palestina

Por alguns dias, vários amigos me pediram para falar alguma coisa sobre o conflito na Faixa de Gaza. Eu vinha relutando em fazer isso, porque o objetivo inicial do blog era falar de assuntos que a grande mídia brasileira (e mundial) estava ignorando, ou trazer algumas informações novas que questionam a "verdade aceita" sobre a economia, a geopolítica, etc. Obviamente, a grande mídia não está ignorando o assunto, muito pelo contrário. E quanto a trazer informações novas, eu não estava acompanhando o assunto o suficiente para trazer um bom argumento, mas acho que encontrei um ângulo para abordar o assunto.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, na minha opnião, não existem heróis e vilões nessa história. Lado bom e lado ruim. Certos e errados. Por mais que pareça, isso também não é uma questão de Davi (os palestinos) versus Golias (Israel). A tendência natural de muita gente é a de torcer pelos palestinos porque eles são os "coitados" da história, os "underdog", como se diz. Isso, entretanto, me parece ser simplesmente um reflexo condicionado, ausente de maiores considerações, ou seja, uma desculpa para não encarar uma realidade bem mais feia e complicada. Uma outra ilusão muito comum entre o público é de que existe uma solução diplomática ou política para esse dilema, e que o problema é falta de "diálogo". Vou tentar demonstrar aqui que esse não é o caso.

Um pouco de história sempre ajuda. Parte da onda nacionalista que invadiu o mundo no século XIX acabou se manifestando como o movimento Sionista entre os judeus. Cansados do anti-semitismo na Europa, e seguindo a moda do século XIX de que toda "nação" deveria ter seu próprio Estado, judeus ricos e influentes na Europa e nos Estados Unidos começaram a se organizar para conseguir seu próprio país. Haviam propostas bastante esquisitas, como comprar algumas ilhas do Caribe, ou pedaços de algum país Sul-Americano para realocar os judeus, mas a corrente principal sempre foi a de reassentar os judeus na "Terra de Israel", revertendo a Diáspora que já tinha quase 2.000 anos, desde quando os romanos expulsaram todos os judeus da Palestina. Não havia nenhum motivo prático para isso. A Palestina era habitada principalmente por árabes sunitas (os palestinos) com minoras cristãs (de maioria ortodoxa) e xiitas. A muitos séculos que aquela região não era habitada por judeus em grandes números. Mas, obviamente, havia motivos simbólicos. Em grande parte, havia também motivos político-religiosos. O movimento Sionista era originalmente bastante diversificado, formado tanto por judeus ricos e intelectuais, tanto liberais quanto conservadores. Judeus nacionalistas, mas de matiz laico. Havia mesmo uma tendência socialista entre os Sionistas (que dariam origem ao movimento dos Kibbutz). Havia também um expressivo número de conservadores religiosos. O único jeito de aliar todas essas facções foi um apelo para o nacionalismo judaico via o Antigo Testamento, alegando que a "Terra de Israel" havia sido dada por graça divina para o povo judeu, e que portanto era justo formar um estado judaico ali. Para os nacionalistas laicos, tratava-se de reverter a Diáspora Judaica, causada pelo Império Romano. Para os socialistas, tratava-se de criar enclaves socialistas longe do anti-semitismo europeu. O que unia todos eles era esse apelo pela "Terra de Isreal". Incidentemente, as fronteiras desejadas para o Estado de Isreal foram tiradas também do Antigo Testamento, sendo basicamente as fronteiras do Reino de Salomão, o auge do estado judaico da Antiquidade. Isso será importante mais na frente.

Antes da Segunda Guerra Mundial, os judeus já estavam se deslocando para a palestina. Fundos foram coletados entre Sionistas europeus e norte-americanos para mandar famílias que desejassem se deslocar para a Palestina. As famílias recebiam dinheiro para comprar alguma terra e começar a povoar o lugar. Depois da Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou a ser um protetorado inglês, e foi criada uma agência para supervisionar a imigração judaica. Essa agência colocou cotas para a imigração, numa tentativa de balancear tanto a população judaica quanto a palestina. Isso não deu certo e os árabes palestinos começaram a atacar os assentamentos judeus. As tropas britânicas faziam o possível para não se meter nesses conflitos, o que fez com que os judeus organizassem a Haganah e a Etzel, duas milícias judaicas (uma de inspiração socialista, outra conservadora-nacionalista). Já nessa época esse conflitos eram bastante sangrentos, com crimes contra "civis" cometidos por ambos os lados. A partir dos anos 30, a imigração de judeus para a Palestina tornou-se uma torrente, com um grande número de refugiados que fugiam da Alemanha, Aústria, URSS e outros estados europeus em que o anti-semitismo estava em alta. Isso causou um sério conflito entre 1936-39 entre os palestinos e os judeus. Temendo afetar as relações entre a Grã-Bretanha e seus aliados árabes, que seriam necessários no caso de uma futura guerra (que estava se aproximando), o governo inglês resolveu criar uma comissão encarregada de dividir a Palestina entre uma região "judaica" e outra "muçulmana", ambas sob o controle final da Grã-Bretanha. Seria feita uma fronteira entre os dois novos territórios e as populações seriam movidas à força. Os judeus para o território judeu, os árabes para o território árabe. Isso nunca foi levado a cabo, porque durante a Segunda Guerra Mundial os ingleses, precisando do apoio árabe, resolveram restringir os direitos dos judeus na Palestina e impedir a imigração em massa.

A criação do estado judaico em si é bem confusa. Os ingleses sairam da região em 1947, uma resolução da ONU foi tomada, criando dois estados na região, um palestino e um judaico, mas tudo isso ficou em grande parte no papel, porque os países árabes declararam que não tolerariam a criação de um estado judaico na Terra Santa e que lutariam "até a morte" para impedir isso. Nos confusos anos do pós-guerra, os judeus da Palestina decretaram a criação do Estado de Israel em Maio de 1948, seguindo a resolução da ONU, e foram imediatamente reconhecidos pelos EUA, União Soviética e diversos países europeus. Imediatamente o novo estado se viu travando uma guerra contra a "Liga Árabe". Essa guerra também foi muito "suja", com atentados com bombas, milícias de ambos os lados matando civis em vilas, etc. Não havia praticamente exércitos formais, apenas as milícias judaicas, que haviam sido fundidas para criar as Forças Armadas de Israel, e os mau-treinados exércitos árabes (Síria, Iraque, Egito e Jordão, principalmente), apoiados pelas milícias locais, muitas vezes suplementadas por mercenários europeus, inclusive ex-soldados da SS. Cerca de 100 mil palestinos deixaram a região, em virtude do conflito. No fim das contas, os judeus foram mais organizados e mais aguerridos do que os palestinos e forçaram um cessar-fogo. O território ficou uma bagunça, com a Transjordânia controlado a região da Cisjordânia e parte de Jerusalém, os egipicios controlando a Faixa de Gaza e os sírios controlando parte da região do Mar da Galiléia, enquanto Israel controlava um núcleo junto ao mar e ao redor de Tel-Aviv e partes de Jerusalém. Após a paz, a imigração judaica para Israel retornou com força total. Em dez anos, a população pulou de 800 mil pessoas para 2 milhões. Nenhum dos lados estava feliz com essa fronteira.

Entre a década de 1940 e o fim da década de 1970, Israel lutaria em outras três guerras regulares contra seus vizinhos árabes, nas quais a supremacia das Forças Armadas Israelenses foi se consolidando cada vez mais. Em todos os conflitos, Israel saiu-se vitorioso contra inimigos mais numerosos e em todos eles Israel conquistou território, chegando bem perto de estabelecer as fronteiras do "Reino de Salomão", que falávamos acima. Depois da Guerra do Yom Kippur, os estados árabes basicamente desistiram de tentar destruir Israel e passaram a ignorar os israelenses o melhor que podiam ou, em alguns casos, até mesmo a travar relações diplomáticas. Enquanto Israel estava travando guerras regulares contra exércitos árabes, o país estava ganhando todas. Mas agora um novo panorama se formava, e as coisas ficam bem mais complicadas daqui pra frente. Em primeiro lugar, nessas guerras Israel anexou território habitado praticamente apenas por palestinos. Agora, Israel tinha uma significativa população muçulmana dentro de suas fronteiras. A Organização pela Libertação da Palestina (a OLP, de Arafat) nessa época era uma organização ilegal que praticava atos de terrorismo contra o governo de Israel, tais como atentados a bomba, assasinato de líderes políticos, sequestro de aviões da El-Al (as linhas áreas israelenses), etc. Por outro lado, os ultra-ortodoxos dentro de Israel começaram o movimento dos "assentamentos", em que eles basicamente iam transferindo famílias judias para dentro da Faixa de Gaza, a Cisjordânia e outras áreas palestinas, com o idéia clara de um dia deslocar todos os palestinos para fora de Israel e estabelecer um "Estado Judaico" puro em Israel. O foco agora deixou de ser guerras entre exércitos israelenses e árabes e passou a ser ações de terrorismo, ocupação de territórios e simples demografia.

A situação de Israel, no longo prazo, é desesperadora. A população palestina de Israel, bem como seus vizinhos árabes (especialmente os xiitas do sul do Líbano, que são quase todos membros do Hezbollah), cresce mais rapidamente do que a própria população judaica de Israel. De fato, se você contar todos os palestinos que moram dentro de Israel e nos campos de refugiados dos países vizinhos, provavelmente já existem mais palestinos do que Israelenses. Conceder plenos direitos de voto a esses palestinos dentro do estado de Israel significaria que, em um par de décadas, a maioria palestina contrololaria o país. Isso é inaceitável para Israel.

Uma solução seria criar o Estado Palestino tão falado, e mandar toda a população palestina para lá. Isso, porém, também parece ser irrealizável. Em primeiro lugar, porque os setores ultra-ortodoxos da população judaica não apoiariam tal movimento e eles estão crescendo cada vez mais dentro do cenário político israelense pelo mesmo motivo dos palestinos. A taxa de fertilidade das famílias ultra-conservadoras é de 7 crianças por cada mulher. Eles estão tornando-se a maioria dentro da população judaica de Israel. E são os mesmos que defendem os "assentamentos" e não querem nem saber de abandonar território. Por outro lado, existe um substancial número de muçulmanos dentro e fora de Israel que não querem nem ouvir falar na existência de Israel. Para o Hamas, o Hezbollah, a Síria e o Irã, Israel tem que deixar de existir e deve existir apenas um Estado Palestino. Nenhum dos lados vai ceder nessa questão, porque os anos de luta, de intifada, de atentados terroristas, de contra-ataques israelenses e tudo mais criaram um enorme grau de intolerância. Não estamos aqui lidando mais com países árabes. Os países árabes, em grande parte, estão preparados para aceitar a paz com Israel desde que a situação dos palestinos seja resolvida pela criação de um estado palestino. Mas a população, especialmente das áreas afetadas, não quer saber disso. Eles querem a cabeça de Israel. É por isso que o Hezbollah controla completamente o sul do Líbano e porque o Hamas ganhou as eleições palestinas e controla a Faixa de Gaza. Para uma quantidade substancial de palestinos, a paz não é uma opção. Eles lutarão até a morte para acabar com Israel.

Chegamos, finalmente ao atual estado de coisas. Israel está numa sinuca de bico. O governo não pode aparecer como fraco, porque os partidos ultra-ortodoxos estão crescendo. Eles não podem tolerar ataques de foguetes contra seu território. As chances de uma negociação para a criação do Estado Palestino são quase zero, visto que o Fatah (o partido do Arafat) não tem legitimidade junto aos palestinos e o Hamas não quer negociar. O Hamas, por outro lado, sabe que Israel não tem como destruir eles completamente. Eles vão continuar atacando para provocar Israel. Numa guerra de insurgência como essa, quanto mais você provoca o exército inimigo a bombardear a região, melhor. Para o Hamas, os civis palestinos sendo mortos na Faixa de Gaza são uma ótima notícia. Isso significa que muitos e muitos mais jovens vão odiar Israel e se juntar a eles. E ainda faz Israel aparecer mau na mídia internacional. Então, não há muito o que dizer sobre essa guerra. Os dois lados estão agindo por condicionamentos que eles praticamente não tem como quebrar. É tudo muito previsível. Israel tem que tentar acabar com o braço armado do Hamas por causa das eleições que vão acontecer em fevereiro por lá e não seria de se admirar que eles estejam se aproveitando dos últimos dias do governo Bush para fazer isso. No curto prazo, as noticias estão indicando que Israel deve parar com os ataques. A Faixa de Gaza vai voltar, de certa forma, ao status quo de anteriormente. O Hamas não deixou de existir, mas pode ser que o potencial armado deles fique abalado por alguns anos, que é o que importa para Israel no momento.

No médio e longo prazo, as opções para aquela região são todas horríveis. O Hezbollah e o Hamas devem continuar a crescer. Os ultra-ortodoxos judeus também. Nenhuma guerra convencional vai resolver aquele conflito. Os dois lados não vão querer negociar fronteiras. Outras ações desse tipo vão continuar acontecendo. Faz apenas 2 anos que Israel atacou a Faixa de Gaza da última vez (em 2006) e, naquela ocasião, o Hezbollah no Líbano também atacou e causou sérias baixas nas Forças Armadas Israelenses, o que é bastante preocupante para Israel. Pode-se esperar uma continuação dessa violência e sectarismo. Esses últimos conflitos, em 2006 e agora, também tem forçado a opinião pública dos países árabes no sentido de forças seus governos a tomar ações mais duras contra Israel. O Egito, o maior aliado árabe de Israel, está vendo protestos contra o governo por conta do conflito na Faixa de Gaza. Não seria de surpreender que regimes anti-israel tornem-se mais comuns no Oriente Médio. Aonde tudo isso vai dar, eu não sei, mas as perspectivas não são boas, para ninguém.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A mau contada história da guerra na Geórgia

Esse é o primeiro post que eu faço a pedidos. Parece que caiu uma questão sobre isso no vestibular da UFC esse ano, e uma amiga me pediu informações sobre isso, então resolvi escrever aqui alguma coisa sobre o assunto e deixar publicado.

A primeira coisa que é preciso entender em relação ao que aconteceu na Geórgia esse ano é que praticamente todas as informações que sairam na mídia foram equivocadas, mau contadas ou simplesmente mentirosas. Quase tudo que você tenha assistido no Jornal Nacional, ou lido num jornal de grande circulação, é informação que não pode ser confiada. Se você se guiar por eles, o que aconteceu na Geórgia foi basicamente o seguinte: a grande e malvada Rússia estava apoiado "rebeldes separatistas" da Ossétia do Sul, e quando a Geórgia foi tentar exercer o controle sobre a região, o Exército russo atacou e destruiu o Exército da Geórgia, massacrou civis e praticamente demoliu o pequeno país. Como eu disse, quase tudo o que está dito acima é falso ou pelo menos maquiado pra confundir você.

A verdade sobre o que aconteceu é BEEEM mais complicada, mas vamos lá. Isso pode ficar um pouco longo, porque a história toda é muito complicada, mas eu vou tentar manter a coisa mais ou menos nos eixos. Em primeiro lugar, é preciso entender que a Geórgia fica no meio do Cáucaso, e aquilo ali é uma colcha de retalhos de diferentes povos, religiões e tudo o mais que você imagina, tudo banhado a muito sangue. Aquilo é uma confusão só, mas basicamente você precisa saber que ali tem gente muçulmana (os Chechênios, por exemplo, que justamente estavam querendo se separar da Rússia por causa disso), gente cristã Ortodoxa Russa, uma minoria cristã nestoriana e diversos outros pequenos cultos que ninguém nunca ouviu falar. Etnicamente, a coisa fica dividida entre os chechênios, os Ossétios, os russos, os azerbaijanos, georgianos, judeus, minorias étnicas de origem persa e os diferentes paises de origem turca ou mongólica (Cazaquistão, Uzbequistão, etc). Complicado o suficiente, já? Pois é, e a maioria dessa galera odeia uns aos outros faz séculos, por razões que só eles entendem. Aquilo tudo tinha sido conquistada pela Rússia czarista no século XIX e, depois da Revolução de Outubro, várias partes da região tentaram se livrar da Rússia, e outras apoíaram a Rússia, enfim, o caos. O Exército Vermelho teve que botar ordem na região a ferro e fogo nos anos 20.

Veja esse mapa pra ter idéia do caos.


Quando a poeira disso tudo baixou, a região foi artificialmente divida em meia dúzia de "Repúblicas Socialistas Soviéticas", como o Kazaquistão, Uzbequistão, Azerbaijão e, evidentemente, a Geórgia. Esses países, vale lembrar, faziam parte da "União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", mas na prática eram estados satélites da Rússia, que era a cabeça central da União Soviética. Muitos desses estados, entretanto, tinham fronteiras artificiais, que deixavam diferentes populações juntas em um mesmo estado, ou populações próximas dentro de estados diferentes. Com a Geórgia, acontecia as duas coisas ao mesmo tempo. Pouca gente sabe, mas o georgiano mais famoso do mundo é um carinha com o nome de Joseph Stálin. Quando ele assumiu o poder na União Soviética, ele não esqueceu a sua velha terra natal e foi bem generoso com a Geórgia, dando um território relativamente grande para ela, no qual outros grupos étnicos não-georgianos estavam incluidos. A Geórgia também ficou famosa como sendo a "riviera francesa" da União Soviética, tipo uma colônia de férias para os oficiais superiores do exército e do Partido Comunista, cheio de "dachas" luxuosas onde os camaradas do partido podiam relaxar e curtir o clima mais ameno do que os invernos rigorosos de Moscou. Eu sei que isso tudo parece pouco relevante, mas vai por mim, é relevante sim.

Agora, chegamos ao centro da questão. Duas áreas, em especial, sempre foram problemáticas na Geórgia. Uma era a Abkhazia, uma região costeira habitada, obviamente, pelos "abkhazes". A outra é justamente a Ossétia do Sul. O engraçado é que, apesar de a Ossétia do Sul ser habitada principalmente por Ossétios, ela faz parte da Georgia, enquanto a Ossétia do Norte, também habitada principalmente por Ossétios, faz parte da Rússia em si. Viram ai como a coisa é complicada? E mais, a Geórgia é um país antiquíssimo, cheio de tradições próprias. Eles tem uma igreja própria (a Igreja Ortodoxa da Geórgia, separada da Ortodoxa Russa), alfabeto próprio, língua própria, etc. Aparentemente eles habitam aquela região desde o Neólitico, sendo um caso raro de povo que ficou no mesmo canto todo esse tempo sem ser extinto. Os Ossétios, por outro lado, são completamente diferentes, eles são um povo indo-europeu, aparentados com os Persas (atuais Iranianos), e o nome antigo deles eram "Alanos" (isso mesmo, aqueles que invadiram Roma). Eles tem uma língua própria, em geral são mais claros e tendentes ao cabelo loiro e olhos claros do que os georgianos, e são Ortodoxos Russos. A coisa toda foi mantida sob controle durante a União Soviética em parte por conta da repressão mesmo e em parte porque, apesar de oficialmente ser parte da República Soviética da Geórgia, a Ossétia do Sul era praticamente uma região autônoma.

Quando a União Soviética se dissolveu, um dos primeiros países a pular fora e mandar a Rússia ir para aquele lugar foi justamente a Geórgia, que nunca tinha gostado de ser parte da Rússia em primeiro lugar. Assim que a independência da Geórgia foi declarada, o caos começou. A Abkhazia e a Ossétia do Sul declararam independência da récem-independente Geórgia, ouve um golpe de estado, uma guerra civil, enfim, o caos. No final das contas, um cara
chamado Eduard Shevardnadze assumiu o controle em 1995, mas no meio da confusão toda a Abkhazia e a Ossétia do Sul, com apoio russo, tinham expulsado o governo da Geórgia das duas regiões e ficaram sendo, de fato, regiões independentes. Mas a ONU, com a sabedoria de sempre (que é zero), resolveu reconhecer todos os países que se fragmentaram da União Soviética com as mesmas fronteiras que tinham antes. Daí, se você pegar qualquer mapa ou atlas, vai aparecer lá a Geórgia inteirinha, com a Abkhazia e a Ossétia do Sul incluídas, apesar de que desde 1993 que o governo central da Geórgia não manda naquelas regiões e que elas são efetivamente independentes. Essa é uma das partes da história que a mídia não conta.

A Geórgia, que não é boba nem nada, procurou apoio dos países ocidentais e, especialmente, dos Estados Unidos, desde sua independência. Se você tem um vizinho como a Rússia, e se vocês dois não se dão bem, o único jeito de você ter alguma paz é se aliar com o único país que bota medo na Rússia, que é justamente o bom e velho USA. Pros Estados Unidos, a Geórgia tinha duas utilidades. Em primeiro lugar, era uma base colada na Rússia, de onde os Estados Unidos podiam continuar a política que eles mantinham desde a queda da União Soviética, ou seja, a de cercar a Rússia com estados-satélites aliados a Washington e deixar a Rússia de joelhos. Na verdade, a Guerra Fria nunca acabou de verdade. Os Estados Unidos até hoje tem tentado cercar e isolar a Rússia internacionalmente e a OTAN (que foi criada para combater o Pacto de Varsóvia) não só continua existindo como incorporou ex-aliados Soviéticos, como a Polônia. Isso é outra coisa que você não lê nos jornais. A outra é que a Geórgia possui um oleoduto importante para os países europeus, pois é por ali que passa a produção de oléo do Azerbaijão, que vai para a Turquia e de lá para a Europa. Sem a Geórgia, o oléo teria que passar ou pela Rússia ou pelo Irã, e nenhum desses países é "amigo" da Europa e dos Estados Unidos. A Rússia, é claro, não gostou de nada disso, mas, falida e desmoralizada, não havia nada que ela podia fazer. Por fim, os Estados Unidos e a Europa chegaram ao ponto de irritar a Rússia com a Guerra do Kosovo. Há de lembrar que a Sérvia era um grande aliado da Rússia e que, quando Kosovo foi declarado independente, isso foi feito por cima de protestos da Rússia e contra a própria política da ONU, que era de não desmembrar países por questões de conflitos étnicos. Uma vez que você começa a separar países por base nisso, tem dezenas de países com minoras étnicas, especialmente em regiões conflituosas como África e Oriente Médio (e o Cáucaso), que vão querer fazer o mesmo.

Chegamos, finalmente, a guerra em si. Em 2003, o tal do Shevarnadze, que tinha sido reeleito no ano 2000, foi retirado do poder pela 'Revolução das Rosas" e substituido pelo atual presidente, um tal de
Mikheil Saakashvili. Isso porque, apesar de ser um aliado dos Estados Unidos, ele não era um aliado bom o suficiente, basicamente. É engraçado que quando um governo eleito que é amigo dos Estados Unidos caí, isso é um "golpe", mas quando o governo é anti-americano, isso é uma "revolução". É esse tipo de coisa que a mídia faz, sem que ninguém note direito. Bom, esse tal do Saakashvili é um linha dura, com fama de esquentado (ou desequilibrado mesmo) e que estudou nos Estados Unidos e fala inglês fluente. É, enfim, um fantoche dos Estados Unidos. Ele recebeu uma grana em "pacotes de ajuda econômica" e em armas, equipamente e treinamento para o exército da Geórgia. Os Estados Unidos deu uniformes, munição, artilharia, fuzis, aviões, etc, para a Geórgia. Até modificou e melhorou os tanques de origem soviética que eles tinham. Obviamente, a Geórgia é um dos poucos países que apoiou a invasão do Iraque e antes da guerra com a Rússia, tinha uns 2.000 soldados georgianos no Iraque, o que representa o terceiro maior contigente, depois do dos Estados Unidos e da Inglaterra.

O tal do Saakashvili, como eu disse, é um linha dura e ultra-nacionalista. Ele também odeia a Rússia. Uma das promessas que fez quando assumiu o poder, foi o de re-estabelecer o controle sobre a Abkhazia e Ossétia do Sul. E é aqui que a mídia fica ainda mais suspeita. Ninguém diz muito isso, mas quem começou a guerra foi a Geórgia, não a Rússia. Veja bem, na Ossétia do Sul tinha um contigente de uns 1.700 soldados russos, que estavam lá legalmente, com um mandato da ONU. Além disso, tem uns 3.000 soldados irregulares nativos da Ossétia. No dia 7 de Agosto de 2008, a Geórgia lançou um ataque por terra e por ar contra a capital regional da Ossétia do Sul, a cidade de Tskhinvali. No processo, eles destruíram várias vilas, mataram centenas de civis e completamente demoliram a cidade nas primeiras 36 horas do ataque. Eles usaram aviões carregadas de "cluster bombs" (basicamente uma bomba feita de centenas de bombas menores, que se espalham e causam grande dano), artilharia e foguetes não-guiados. Vários soldados russos que estaval lá, repito, legalmente, foram mortos nesses bombardeiro. Pra vocês terem noção, a Ossétia do Sul inteira só tem 80.000 pessoas (isso deve dar mais ou menos a população do Conjunto Ceará, ou até menos), e cerca de metade dessas pessoas teve que fugir para a Rússia por causa da destruição, umas 1.200 ou mais morreram e o resto ficou tentando sobreviver nos escombros.
Tanque da Geórgia destruído em Tskhinvali

Ninguém sabe bem o que se passou na cabeça do Saakashvili e do alto-comando do exército da Geórgia ao fazer isso. É um mistério que o presidente de um país do tamanho da Geórgia (população 4 milhões, cerca de metade da população do Ceará) tenha decidido atacar a Rússia. Logo a Rússia, o país que derrotou Napoleão, Hitler e que nunca foi invadido desde o tempo dos Mongóis. Mas a verdade é que ele atacou, ele que começou a guerra, e ele foi o primeiro a cometer barbaridades, como bombardear pesadamente uma área civil. Eu só posso imaginar que eles pensaram que a Rússia não ia revidar, com medo dos Estados Unidos, mas isso não aconteceu. O que pegou todo mundo de surpresa foi a velocidade com que a Rússia reagiu. Ninguém dava mais nada pelo Exército Russo depois da queda da União Soviética, dizia-se que ele era mau-treinado, mau-pago, mau-equipado, etc. Mas, o que apareceu na Geórgia foi diferente. Em menos de 24 horas a Marinha Russa bloqueou os portos da Geórgia e desembarcou uma força anfíbia na Abkhazia e a Força Aérea Russa abateu todos os aviões da Geórgia que se atreveram a voar e estabeleceu controle aéreo do país. Os cerca de 1.500 soldados da Geórgia que atacaram a Ossétia do Sul só ficaram em Tskhinvali por cerca de 3 horas, antes que tivessem que se retirar sob fogo da artilharia e dos aviões russos. No dia seguinte, a infantaria e os tanques russos já estavam rolando a toda velocidade na Ossétia do Sul. Já no terceiro dia das operações todas as forças da Geórgia tinham sido expulsas da Ossétia e estavam em fuga aberta, sendo bombardeadas pelos aviões russos. Todo o equipamento pesado deles, tanques, caminhões, artilharia, etc, foi destruído ou abandonado. Enfim, a Rússia demoliu o exército da Geórgia em 48 horas. Se o Putin quisesse, ele tinha mandado os tanques entrarem em Tbilisi (a capital da Geórgia) e ninguém ia poder impedir. Ele chegou mesmo a deixar algumas tropas entrarem dentro da Geórgia, conquistado a cidade de Gori (por onde passa a principal estrada e ferrovia do país, cortando a Geórgia ao meio) e os portos do país. Os Estados Unidos fez pouca coisa além de reclamar e arrumar uns aviões para levar os soldados da Geórgia que estavam no Iraque de volta pra casa, mas antes que eles pudessem fazer qualquer coisa a Rússia já tinha ganho a guerra.

Obviamente, a história não foi contada desse modo. Os soldados russos foram surpreentemente controlados quando entraram na Geórgia. Eles não destruíram muito as regiões onde chegaram, nem mataram civis ou coisa do tipo. O exército russo tem a fama bem-merecida de ser brutal, mas dessa vez eles forama até calmos. O que apareceu na mídia, entretanto, era que a Rússia estava destruíndo a Geórgia, matando civis, o presidente da Geórgia, o louco, teve até a ousadia de dizer que a Rússia estava cometendo um "genocídio" na Geórgia. E a mídia ocidental repitiu esse negócio todo por alguns dias. Chegou-se inclusive a se falar que a Rússia tinha atacado a Geórgia, porque a Geórgia era um estado "democrático", e isso irritava a Rússia e outras asneiras do tipo. No final das contas, os repórteres que foram pra lá começaram a contar uma história diferente. Ficou claro que quem tinha começado o tiroteio tinha sido o
Saakashvili, que ele tinha atacado civis na Ossétia do Sul e que os russos não estavam, de fato, destruindo a Geórgia. O próprio Departamento de Estado começou a mudar de foco. Em vez de repetir os chavões do Saakashvili, eles passaram a tentar acobertar a coisa toda, o que foi fácil, porque as Olimpíadas tinham acabado do começar. Quando a mídia ocidental descobriu como a coisa toda fedia, e que eles tinham mentido para o público quando repetiram informações mentirosas da Geórgia e do Departamento de Estado dos Estados Unidos, eles ao invés de dizer que tinham errado e tal, simplesmente calaram a boca e fizeram uma meia dúzia de matérias escondidas que contavam, mais ou menos, o que se via. Somente através da internet você conseguia umas informações mais detalhadas.

Não se pode dizer que a Rússia era a boazinha da história. Eles demoliram o exército da Geórgia mais do que era necessário como forma de demonstrar força. Há também interesses estratégicos que ela estava seguindo. Dando uma pisa na Geórgia ela mandou uma mensagem indireta pra todos os países da região de que não adianta ser baba-ovo dos Estados Unidos. Quem manda ali ainda é a Rússia, e é bom esses outros países prestarem atenção e serem legais com o Tio Putin. Especialmente quando eles quiserem fazer algum oleoduto. Agora, o que rolou na mídia foi uma história tipo Davi e Golias. Que a pobre coitada Geórgia foi atacada pelo grande vilão Rússia. E isso simplesmente não é verdade. Esse
Saakashvili é um louco, uma ameaça à ordem internacional. A Geórgia é um fantoche dos neo-conservadores americanos. Isso precisa ficar bem claro.

Bom, esse post ficou gigante, então vou encerrar por aqui. Desculpem, mas a história era complicada mesmo. Se alguém pedir, posso botar uns links para sites (em inglês), que eu usei como fonte.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Piratas da Somália: A Maldição do Sirius Star!


Já posso até ver o próximo sucesso de Hollywood. Eles estão fazendo um quarto filme na série "Piratas do Caribe", mas eu acho que ao invés de fazer aquela mesma história de sempre, com o Johnny Depp procurando algum tesouro mágico em algum lugar perdido, o que, francamente, está um pouco batido, eles deveriam ser mais ousados com o novo filme. Por que não fazer um daqueles filmes "baseados em eventos reais"? O título eu já deixei aí em cima!

Como vocês bem sabem (ou não), a costa da Somália se tornou, nos últimos anos, a região mais perigosa do mundo para se viajar de barco, por conta da ação de piratas na região. Isso mesmo. Piratas de verdade, em 2008! Que diabos, eu não duvidaria nada que pelo menos um deles até use um tapa-olho! Só esse ano, foram registrados mais de noventa ataques contra navios na região, 38 desses navios foram capturados e pelo menos 16 navios ainda estão em poder dos piratas. Um deles é o Sirius Star, um navio petroleiro saudita de 330 metros de comprimento, carregando quase 2 milhões de barris de petróleo. Para vocês terem uma idéia, cabem três campos de futebol em cima do deck do navio e, quando carregado, ele pesa três vezes mais do que o maior porta-aviões da Marinha americana. No momento, ele está ancorado perto de uma cidadezinha da Somália chamada Harardhere, sendo que eu não duvidaria que ele fosse maior do que a vila inteira. Um outro navio bastante interessante também foi raptado pelos piratas Somali, dessa vez um navio ucraniano chamado MV Faina, que está ancorado perto da mesma vila. Esse navio, entretanto, tem uma carga bem mais interessante: 33 tanques soviéticos, fuzis, lança-granadas e munição. Teoricamente esse material teria sido comprado pelo Quênia, mas parece que na verdade o negócio todo é contrabando que ia acabar na mão dessas milícias que tem na África.

Diferente dos seus côngeneres do século XVIII que em geral abordavam os navios para roubar as cargas, os piratas da Somália estão atrás de resgate. Eles mantém o navio e a tripulação reféns dentro do navio, perto da costa, até que o dono do navio pague um resgate, em dinheiro vivo, pelo navio e pelos tripulantes. Segundo relatos das tripulações resgatadas, eles são bem tratados pelos piratas, que chegam ao ponto de contratar moradores das vilas para cozinhar comida "ocidental", lavar as roupas, etc. Depois de pago o resgate, o navio é liberado. As autoridades do Quênia, país vizinho, acreditam que só esse ano os piratas receberam $150 milhões em resgate. Nada mau para um país que não tem porra nenhuma, né?

E é justamente por isso que a pirataria é um negócio em rápida expansão na Somália. Veja só, desde 1992 que a Somália não tem um governo. Aquele lugar é um caos completo. Como o país não tem governo, não tem polícia, nem Marinha, nem Guarda-Costeira, nem nada. Durante esses últimos anos, vários navios de pesca industrial asiáticos invadiam as águas costeiras da Somália e literalmente acabaram com todos os peixes da região. Os pescadores locais não tinham a menor chance de competir. Foi aí que começou a pirataria. Os pescadores arranjaram umas armas, uns barcos rápidos a motor e passaram a atacar os navios de pesca, pedindo resgate para liberar eles. Quando eles viram que o resgate dava mais dinheiro do que pescar, a coisa tomou impulso. Pelo que se sabe, os chefes tribais da Somália agora apoiam os piratas. E eles estão ficando mais sofisticados. Os piratas agora são compostos por ex-pescadores, que são considerados os cérebros por trás das operações, visto que são eles que conhecem o mar, as rotas dos navios, etc. Junto deles, vão os ex-soldados das milícias tribais, que servem de músculos, armados de AK-47's e lança-foguetes. Por fim, tem os especialistas, os caras que operam os GPS's, os telefones por satélite, as máquinas de contar dinheiro e que servem como tradutores para falar com as tripulações e com os donos dos navios. Pelo que se sabe, esses últimos são ex-professores, técnicos desempregados, etc. Quando chega o resgate, os piratas deixam cerca de metade do dinheiro com os líderes tribais e dividem o resto da grana entre eles. E, caras, eles tão ficando ricos. Constroem casas enormes nas vilas onde eles têm as bases deles, casam com as garotas mais bonitas da região (a Somália é um país em grande parte islâmico, portanto, os homens praticam a poligamia e é considerado de alto status poder manter várias esposas), compram carros possantes, etc.


A maioria dos piratas é de uma região chamada "Puntland", que é aquela ponta do "Chifre da África". Se vocês verem bem um mapa, essa região fica colada com o Golfo de Aden, que é a único caminho possível para todos os navios que tem que passar pelo Canal de Suez. E passam MUITOS navios por ali. Mas os caras são até mais ousados. Além de atacar os navios que passam ali pelo canal, eles tão atacando navios em alto-mar, por todo o Oceano Indíco. O Sirius Star, por exemplo, foi capturado centenas de quilômetros ao sul, em alto mar. Isso porque, obviamente, com tantos atos de pirataria, as Marinhas do mundo estão começando a reagir e patrulhar a região, o que está deixando o Golfo de Aden meio perigoso para os piratas. Um dia desses, a Marinha indiana até afundou um navio que estava sendo usado pelos piratas. Infelizmente, era um navio que eles tinham acabado de capturar e a tripulação original ainda tava dentro e 14 pessoas morreram, só um escapou vivo, depois de ficar uma semana boiando em alto-mar. Ah, os piratas fugiram antes do barco afundar. Na verdade, os piratas continuam dando um baile nas Marinhas.

Então, estou certo ou não em propor essa nova temática? Olha só, eu tenho até um elenco prontinho para atuar! Veja só que elenco talentoso e carismático! O segundo cara na fileira de cima tem tudo para ser o herói principal, com aquele sorriso charmoso e seu lança-foguetes a tira-colo. O cara logo embaixo dele é o palhaço da turma, com aquele chapéu engraçado. Muito melhor do que o Johnny Depp e o Orlando Bloom! Fica faltando uma atriz feminina, para tomar o lugar da Keira Knightley, mas acho que deve ser fácil comprar uma noiva ou duas em Mogadishu para estrelar.